Chamados à Esperança

22-10-2025

"Uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar."

Carta aos Romanos cap.8, vv.24-25

Eis um grande desafio em meio às nossas vidas rodopiantes: esperar. Esperar o quê? O que eu quero, o que eu anseio, desejo para mim e para a minha vida? Também, mas é um desafio maior do que esse: esperar o bem, esperar a vinda de um mundo melhor. Esperar uma vida melhor. A esperança não significa ausência de dor, define-se antes como necessária, sobretudo nos momentos apertados, para que confiemos, para que continuemos a não desistir! Não nego que seja um exercício exigente, mas creio firmemente que é para isso que somos chamados. Esta esperança não deve fazer de nós ociosos, 'porque se precisamos de aguardar não façamos nada então'. Muito pelo contrário, ela impele-nos ao exercício espiritual de treino da nossa paciência e alegria, mesmo em momentos de desespero ou maior desconforto. O esperar não significa, pois, fazer nada, quanto ao estado de coisas que acontece ou previsto nas circunstâncias da vida. Significa tomar uma atitude para com esse estado de coisas, como desejar muito que algo aconteça. Quando muitas coisas nos fogem do controlo, não as vamos conseguir ajustar convenientemente, quando muito nos dispomos a ajudar com qualquer coisa pequena, tentamos fazer o que está ao nosso alcance.

No entanto, aí está o cerne do tema: o que fazer então? Resta-nos esperar, com confiança e otimismo, a resolução dessas mesmas coisas, percebendo que elas chegarão a um termo, da melhor forma. E em vez de interferirmos no processo, colaboremos com o que pudemos. Esse é um verdadeiro ato de esperança! E a Esperança é necessária diariamente, e cada vez mais ela é precisa. Vai de encontro com o que nos é mais favorável.

A perseverança e a insistência são, por isso, duas virtudes que desencadeiam da Esperança, digamos que uma e outra vão ao encontro da mesma, enquanto uma significa persistência no modo de articular as coisas, de as fazer e de esboçar sobre o que há necessidade na vida de cada um, a outra designa a tentativa de fazer algo acontecer, de não se deixar ficar pela vez que não tenha trazido os resultados esperados nem tão pouco se deixar vencer pelo cansaço que é fazer tudo de novo ou por uma outra vez repetida, mas insistir até conseguir, insistir até conquistar, insistir até alcançar e esta insistência não resulta pois do desespero mas sim da Esperança. Porventura, o que não é para ser não o forcemos, virão coisas melhores. Mas disto devemos ter a certeza: quando se pede, recebe; quando se procura, encontra. A felicidade e a alegria são, por consequência, os sentimentos que se seguem à Esperança. Ainda assim, a Esperança deve e tem de ser descoberta e achada mesmo em meio à confusão, em meio da preocupação, da incompreensão, mesmo em meio do medo. Não pomos esperança naquilo que não queremos, portanto também não tornamos relevantes o desânimo e o cansaço que saem, por vezes, desse processo. Aceitamos, sim, essas emoções, mas transformamos esses pessimismos em algo melhor, damos espaço ao que é importante, avançamos sem deixar que eles progridam e se desenvolvam para algo pior. Porque no fundo a Esperança não se trata sobre esperar em vão, não é uma ilusão e tampouco ineficaz ela produz algo muito mais favorável do que pensamos, e leva-nos a um desenlace vantajoso, benigno e favorável diante de uma qualquer situação. Tem por base o otimismo de algo que está por vir, a confiança numa força maior, a segurança que é poder acreditar que não será certamente frustrada- faz-nos ancorar na solução e move-nos para fora do problema. Torna-nos firmes na posição de ir em frente, sem receio ou escrúpulos. Permite-nos, ainda, abrir a mente a que, por vezes, é na fraqueza que a força se manifesta e a espera é um tempo adequado para o crescimento interior. Realiza em nós a boa vontade que é bem aceite em atenção ao que se tiver, e não ao que se não tem. Trabalha em nós a humildade e ensina-nos a trabalharmos com o pouco que temos.

É, na verdade, uma obrigação do Homem, porque se este não faz dela um suporte de vida, tudo fica mais vazio e cinzento ao redor, não detetamos aprendizagens, não vemos o lado bom das situações, não enriquecemos a experiência, não vivemos com intensidade. Sem ela, as coisas vão-se desconstruindo para mundos onde não há força ou motivação para seguir em frente. Muitas ocasiões da vida propiciam quem as vive a recorrer a essa ferramenta capaz de transformar a realidade interior, como parte de um caminho que exclui a tristeza momentânea pela alegria perpétua. "Não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas."(2 Cor 4: v.18) Ou aliás, mesmo envoltos de sentimentos negativos, a Esperança não olha para o estado de espírito da pessoa como detentor que faz dele um ser incapacitante, sem força para revirar o pessimismo e encarar a circunstância pela utilidade e prática que com ela vai. Não é uma característica insignificante ou não precisa, é um requisito a levarmos a alegria no coração, prontos para partilhá-la com quem dela carece. Viver a Esperança não é dar-se a vãs crenças e a uma fé pobre, antes é ser autêntico, é ter a convicção profunda num projeto de paz que traz de volta a alegria de acreditar, porque renova em nós a vontade de ser algo mais, faz-nos percorrer um caminho de maior lucidez, de escuta, de reflexão ponderada, em que cada passo é dado com firmeza e coragem, sem vacilar, seguindo em direção à solução definitiva. O poder da Esperança está em abrir o coração ao que é justo, ao que é sábio, ao que é certo, ao que é pacífico, ao que é nobre, ao que é verdadeiro. E assim conduz-nos à liberdade, à dedicação dos trabalhos a que somos sujeitos, à persistência e ao esforço por manter a unidade do espírito, mediante o vínculo da paz. Se nos preocuparmos depois de depositarmos na nossa esperança aquilo que desejamos, revelamos ser inseguros. Não há nada com que se preocupar, se depositamos confiança na esperança de que vai correr bem, na verdade não existe razão para nos inquietarmos. Nem sempre é uma ideia bem aceite ou compreensível, pode mesmo vir a ser difícil tendo em conta os dias que correm, mas que nos vale sentir ansiedade pelo que ainda não é garantido, que nos assegura preocupar-nos demasiado com as coisas? Isso não nos traz o que procuramos e não nos aproxima da solução. Como tal, a Esperança não só traz segurança como nos livra de um peso que não precisamos de carregar.

Somos seres extraordinários, temos capacidades incríveis de nos manter ligados. Somos seres abundantes em virtudes que podem e devem ser exploradas por cada ser humano, aliás é para elas que nascemos, existimos e vivemos, na esperança de que nos formaram pessoas melhores. E se não arriscarmos pô-las em prática, algo em nós fica incompleto e a nossa realização mais longe de ser vivida, porque não encontramos a plenitude e a chave para a verdadeira felicidade. Se formos pessoas mais focadas nos problemas da vida, e não nas soluções que nos poderão tirar do seio destes, não vivemos em acordo, não encontramos paz. De contrário, se virmos que a adversidade produz a paciência, a paciência a firmeza, e a firmeza a esperança, estamos mais perto de entender que a esperança não engana.

A Esperança que age por todos e em todos, chama-nos a persistirmos, a não nos deixarmos por vencidos, a não nos contentarmos com o pouco e convida-nos a sermos agradecidos, mesmo quando as coisas não vão como queríamos, a suportarmo-nos uns aos outros, com paciência, generosidade e união, como se um de um só se tratasse, porque a seu tempo colheremos o que tivermos cultivado, semeado. Chama-nos a sermos mais livres, mais confiantes, mais humanos. Pois não é decerto a última a morrer.

"Por isso, não desfalecemos, e mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia."

Gálatas cap.6-v9

Márcia Bastos

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